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Após a leitura catártica de O perigo de estar lúcida, de Rosa Montero, cheguei a um diagnóstico simples, direto e incontestável:
sou uma escritora.
Uma fatalidade, no sentido do destino inevitável.
Talvez isso explique todas as minhas encucações. Os tantos devaneios, a necessidade intrínseca de escrever, criar, inventar histórias. E também, é claro, a busca inquietante pelo reconhecimento, por ser lida.
Ah, sim, quero muito ser lida.
Afinal, como escrevi em As mariposas da morte, “a vida acontece ao lado de quem entende a sua loucura”.
Então ser publicada e lida não seria uma forma de encontrar pessoas que se identificam com a minha loucura?
Acho fascinante como as pessoas criam universos inteiros dentro da mente e passam meses, até anos, traduzindo tais delírios em milhares de palavras.
E quando essas palavras saem das asas da autora ou do autor, são capazes de gerar identificação, emoção e podem marcar para sempre a vida de alguém.
Por fim, abraçamos a loucura da criação sem questionar.
Em “Introdução da autora” na edição de Frankenstein de 1831, Mary Shelley diz:
“A inventividade, é preciso admitir humildemente, não consiste em criar do vazio, e sim do caos; a matéria-prima deve, primeiro, estar à disposição.”
Em O caminho do artista, Julia Cameron trata a criatividade como um processo espiritual.
“Artistas são visionários. Praticamos uma forma de fé, enxergando um objetivo criativo que reluz a distância e seguindo em sua direção.”
Confesso que, dentre as religiões que já me foram apresentadas nessa vida, não soa absurdo ser devota da criação. Inclusive, tenho meus ritos.
Antes de escrever, acendo uma vela aromática, pego um café e um quadradinho de chocolate meio amargo, ligo o computador e, então, estou pronta para delirar. Devanear, encarar mundos, falar com personagens, deixar minha mente flutuar e criar, como se eu pudesse ser um pouco deus.
Quando terminei de escrever As mariposas da morte, me senti poderosa e, ao mesmo tempo, vazia. Era como se o caos, citado por Mary Shelley, tivesse se dissipado, mas também me vi diante do meu objetivo criativo cumprido e me senti divinamente sã.
Quando crio, pássaros cantam e sou meu próprio jardim.
Em Mulheres que correm com os lobos, Clarissa Pinkola Estés trata a criatividade como um rio.
“No entanto, quando a vida criativa morre porque não tivemos cuidando da saúde do rio, a situação é inteiramente outra. Sentimo-nos exatamente como o rio que morre. Sentimos a perda de energia, sentimo-nos cansadas.”
Esse era meu exato sentimento quando parei de escrever, lá no início da faculdade, ingressando no mercado de trabalho.
Diziam que eu era infantil.
Passei anos tentando parecer adequada, mais séria, mais adulta, pois minhas feições, que me fazem parecer mais nova do que sou, e até mesmo minha voz, essa mais suave, nunca jogaram ao meu favor na hostilidade corporativa.
Por fim, parei com as fanfics e com os vídeos no YouTube que eu gravava na época. Acreditei que assim poderia focar na tradicional carreira.
Mas o resultado foi um rio turvo e sem graça. Foi nessa época, inclusive, que tive meus piores ataques de pânico.
Eu não sabia que, o que chamavam de infantilidade, era só um dos sintomas da minha condição criativa.
Do meu diagnóstico: escritora.
Conversando sobre o livro de Rosa Montero com um amigo que trabalhou na mesma empresa que eu, descobri que ele, enquanto artista, também já foi alcunhado como infantil.
Talvez seja essa a sina de quem cria.
“Ao chegarmos à puberdade, acrescentava eu, começávamos a dizer que aquelas fantasias eram coisas de criança pequena e que precisávamos crescer e superá-las. E era o que fazia a maioria das pessoas, obedecer e aplacar a imaginação — exceto alguns de nós, que continuávamos vendo dragões.” — O perigo de estar lúcida, p. 74.
Eu ainda vejo dragões.
Enquanto um pé pisa na realidade, o outro flutua e encontra em uma árvore, numa flor ou em um detalhe banal, uma história inteira.
Às vezes penso: tenho medo de parecer uma maluca.
Mas esse medo existiria se essa a possibilidade não fosse, de fato, real?
“Ao que me parece, revendo a história da irmã de Shakespeare como eu a inventei, é que qualquer mulher que tenha nascido com um grande talento no século XVI certamente teria enlouquecido, atirado em si mesma ou terminado seus dias em um chalé nos arredores da vila, meio bruxa, meio feiticeira, temida e escarnecida. Não é preciso ter grandes habilidades em psicologia para afirmar que qualquer garota muito talentosa que tenha tentado usar seu dom para poesia teria sido tão impedida e inibida por outras pessoas, tão torturada e feita em pedaços por seus próprios instintos contrários, que deve ter perdido a saúde e a sanidade, com certeza.” — Um teto todo seu, Virginia Woolf - p. 74
Não à toa, muitas mulheres publicaram anonimamente ou sob pseudônimos masculinos.
Percebe?
Mesmo diante de tantos vieses, escrever continuou sendo uma fatalidade, mesmo as custas do apagamento.
Se hoje posso, orgulhosamente, colocar meu nome na capa do meu livro e receber dinheiro com a venda deles, é porque, no passado, muitas mulheres sustentaram a própria loucura.
Sentir demais e ser demais é desafiador em um mundo que nos pede para ser tão cópia do outro, tão linear.
Eu mesma tenho medo de perder minha sensibilidade e não ser mais capaz de atravessar as tramas da realidade em direção ao meu jardim — mesmo que às vezes isso me faça patinar a beira do precipício.
Porque, no fim, a verdade é essa:
escrever é ter para onde voltar.
Último Tomatinhos de 2025
Antes de encerrar o ano, um agradecimento:
Para mim, a literatura sempre foi um espaço de encontro e movimento.
Desde que lancei meu livro de estreia, As mariposas da morte pela editora O Grifo, muitas portas se abriram.
O livro foi o primeiro lançamento do clube de assinatura da editora, totalizando 106 assinantes, teve leitura coletiva com mediação da incrível Irka Barrios, esgotou no evento de lançamento na livraria Poison Books e, para minha grande surpresa, em pouco mais de um mês também esgotou no estoque da editora indo para sua primeira reimpressão.
Não tenho palavras para dizer o quão lindo e gratificante tem sido a trajetória de Mariposas e todo o carinho que tenho recebido. Muito obrigada! 🦋
Um recado:
As mariposas seguem voando.
A continuação de As mariposas da morte está prevista para ser escrita em 2027.
O motivo é o seguinte…
A fofoca:
Tem livro novo chegando em 2026! 🩸⚔️
E essa foi, com certeza, mais uma das portas que Mariposas me abriu.
Dessa vez teremos uma fantasia sombria com caçadores de demônios (cadê os fãs de Supernatural?), que será publicada pelo Grupo Avec Editora.
Não vejo a hora de compartilhar mais sobre essa história com vocês!
Mais informações em breve.
Agora, sim, a despedida.
Obrigada por me ceder um espaço na sua caixa de entrada ou simplesmente pelo seu tempo para ler meus devaneios e histórias.
2025 foi incrível e, se você está aqui, imagino que nossas loucuras se encontraram de alguma forma.
Nos vemos de novo em 2026! 🤘
Obrigada por ler mais uma edição do “bruna está digitando…” até o final.
Deixe seu comentário após o sinal.
[piiii]
Bruna Corrêa — escritora de ficção, e-mails e devaneios.
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