Entrelaçadas
as maluquices do tempo de um bebê e uma mãe
Não posso tomar todo o café que preciso mesmo com muitos dias de sono acumulados. A cafeína passa no leite que alimenta o bebê e você quer que o mesmo durma. Não posso tomar banho na hora que tenho vontade e nem mesmo na hora que estou suada e fedida. Não posso almoçar ou fazer qualquer refeição no minuto da fome a não ser que aconteça uma feliz coincidência na rotina. Não tenho nenhum respingo de liberdade. Não consigo nem mesmo imaginar quando terei. E nem como farei para minha vida profissional se encaixar de alguma forma com a realidade que tenho hoje. Não sou dona dos meus braços, da minha coluna, do meu pescoço. Meus músculos derretem numa velocidade nunca vista antes neste corpo. Cortei os cabelos. Primeiro porque quis e apesar de não ter ido no horário que me era habitual, ainda posso escolher isso. Segundo porque meus fios estão caindo pela casa por causa da queda hormonal do pós parto. O novo corte me deixa feliz e a olheira instalada no meu rosto me deixa infeliz. Não deu tempo passar maquiagem. Era isso ou o look bonito. Escolhi o look. Penso em sonecas durante o dia inteiro. O bebê precisa dormir para ser saudável. Eu preciso que ela durma para ler no Kindle ou ver uma série. Me abasteço de chocolate para seguir em frente. Minha pelve ainda sofre os impactos da gravidez e do parto. Sinto a rigidez passando em cada nervo enquanto a nino em pé de um lado para o outro da sala. Às vezes sinto a panturrilha ou a escápula porque nino na bola de pilates. Escrevo aqui enquanto ela dorme no peito do pai. Falar em peito, não sou mais dona dos meus. O bico é puxado e repuxado enquanto a moça toma seu leite e ao mesmo tempo observa o mundo ao redor. Saio atrasada para compromissos. Carrego pesos jamais imaginados. Físicos e emocionais. Vou ao mercado correndo. Vou na fisioterapia correndo. Vou à academia correndo. Fui no salão pro tal corte do cabelo correndo e não deu tempo de fazer uma necessária hidratação. Almoço batendo palmas para ela ficar de boas no tapetinho me olhando mastigar. Nós duas. Na maior parte do tempo, após o papai voltar da licença, só nós duas. Não posso não me emocionar quando ela me olha e ri. Não posso não chorar quando ela sofre. Seja com uma cólica ou com a picada da vacina. Não posso não querer uma bolha de proteção para colocar ela dentro. Não posso desejar um tempo sem tanto colo porque ela se encaixa no meu. Não posso perder a beleza do olhar curioso para o mundo. Nem quando ela olha encantada meus cabelos cortados ou não. Não posso perder a boquinha que ela faz quando está chegando no peito em busca do seu alimento. Nem o bico ao avistar uma coisa nova. Não posso esquecer o remelexo do corpinho animado quando escuta o barulho do chuveiro ligado. Não posso me distrair e perder a primeira vez que pega no pé, que aprende a rolar, que dá gargalhada. Não posso compreender a ambiguidade da maternidade. De cuidar de um bebê. De existir sendo quase 100% de outra pessoa. Não posso esquecer a sensação de conseguir acalmar. De dar segurança. De ser tudo sabendo que na verdade sou muito pouco. Não posso deixar escapar esse nó entre nós.
Queridos leitores, a maternidade se instalou por aqui e me roubou tempo, neurônios e muito mais como descrito acima. A escrita frequenta meu cérebro, crio textos mentalmente, mas falta fôlego para colocar todos em prática. Este ganhou vida no bloco de notas. A frequência aqui segue sem muito padrão, minhas únicas promessas são para minha pequena menina. Nem essas posso garantir, tudo depende do sono. haha O desejo é voltar ao menos quinzenal. Dedos cruzados.
Enquanto isso, vamos vivendo um dia de cada vez com presença. Agradeço o carinho e afeto.
Beijos,
Gabi.



que lindo!!
É, amiga, essa dualidade da maternidade não é fácil. Estou aqui te lendo, depois de tentar fazer a pequena dormir, dormiu, mas acordou, agora o pai pegou e fiquei nervosa, frustrada e ainda tenho trabalho remunerado pra entregar e já passam das 20:30. A vida de mãe não é fácil, mas depois que a gente vira uma, não quer saber de outra vida, não é?
Um beijo de uma mãe exausta (mas feliz!) para outra ❤️